Igreja Nossa Senhora de Lourdes - Fortaleza-CE |
MISSA DO 7º DIA DE MORTE DO DR. SÉRGIO
GOMES DE MATOS
PALAVRA
DA ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA
“Nossos últimos dias, desde o mais próximo
e pretérito dia 24, têm sido muito tristes para os que vivem nesta luminosa
cidade de Matias Beck”
Retirando os óculos (por não aderir às lentes
progressivas) e com esse apontamento de dedo (não com a prepotência do dedo em
riste, mas o dedo elegante de quem valoriza o que fala), provavelmente, essa
teria sido a frase introdutória dessa homenagem póstuma, se neste microfone
estivesse o Dr. Sérgio Gomes de Matos a manifestar-se a propósito do passamento
de qualquer um de nós. Faço minhas as suas prováveis palavras.
Boa noite a todos, se isso for
possível. Estamos aqui, com pesar e honra, representando o Professo Djacir
Gurgel de Figueiredo, Presidente da Academia Cearense de Medicina, assim como
todo o corpo de acadêmicos da nossa arcádia.
Desde que convocado para essa difícil
missão, inquietei-me com a referência popular de que ao falarmos dos mortos criamos
uma criatura imaginária, despida dos seus defeitos e vestida de falso
virtuosismo. Então como eu faria se a memória do Dr. Sérgio não carece desse
recurso? Será que minhas palavras soariam como falácias, sofismas?
Certamente que não. Por vias das
dúvidas, pensei uma estratégia, pois a coleção de virtudes do nosso querido
Sérgio é tão grande que talvez parecesse mais verossímil aos menos avisados se
eu a dividisse com o conjunto dos seus amigos. Por isso, passei a anotar todas as
manifestações que ouvia ou via, espontaneamente, sobre a sua pessoa, desde o
momento da sua morte até o dia de hoje. Concordei com todas elas e ainda mais
acrescentei. Suas dimensões humanísticas dispensam referências puramente
acadêmicas ou curriculares já tão reconhecidas e alardeadas. Por isso,
pontuarei seus caracteres relacionais, culturais, sociológicos e
antropológicos.
·
Mentiram
para mim. Desde que me chegou o outono da vida, recomendam-me para
cuidar das amizades antigas, pois já não há tempo para novas e confiáveis
amizades. O acadêmico Sérgio contrariou essa desdita. Ele foi o meu melhor
amigo temporão. Aprendi a amá-lo como grande amigo desde 2011, quando da minha
entrada na academia. Obrigado, Sérgio, pelo tempo que você investiu em mim. Confirmei
com sua amizade a reflexão do Papa Francisco de que “Os amigos são sempre dons
de Deus”.
O conjunto das suas virtudes foi destacado por diversos
amigos da sua maior ou menor convivência.
·
Desprendimento,
Generosidade, Magnanimidade - Foram essas suas virtudes lembradas
pelos acadêmicos João Evangelista e Flávio Leitão. Palavras do Dr. João
Evangelista: “Se você estivesse em algum lugar do Sérgio (casa, consultório,
biblioteca) e manifestasse admiração por algum objeto, livro ou qualquer item
do ambiente, você não sairia sem levá-lo. Ele exigia que você o aceitasse”
·
Amizade - Ele
pensava nos amigos mesmo quando distantes. Tudo que relacionava e interessava aos
amigos ele captava e os presenteava como mimos (objetos, souvenirs, livros,
matérias..). Não consegui ainda ler todos os livros sobre religião e
espiritualidade que ele me doou, tantos foram eles nos últimos tempos.
Restou-me o consolo de que, em todos eles, eu exigia a oferta com sua
assinatura e leveza. Nesses dias, os li e reli todos os oferecimentos. O Sérgio
cumpriu o Primeiro Mandamento da Lei de Deus amando o Pai por meio dos seus
irmãos.
·
Humildade
>>> (Cultura - Capacidades - Talentos) -
Imensa memória, Vasto conhecimento, Parecia saber tudo de tudo > Sabedoria
sem afetação > Conhecimento maior que a aparência > Ajudava o
interlocutor sem constrangê-lo. O que mais me impressionava no Sérgio era a
desproporção, rara de se ver, entre seus talentos e sua humildade. Viveu sem
conhecer a soberba, a vaidade e a vanglória, apropriado aos grandes homens, às
grandes almas.
Acadêmico
João Martins: destacou seu fino humor e sua capacidade de “sair à francesa”,
como desta feita, saiu sem nos avisar.
Acadêmica
Márcia Alcântara: chegou no Hospital de Messejana para aprender medicina com o
Sérgio. Ele mostrou que isso era pouco. Ela precisava também estudar
literatura. Sob sua égide, entusiasmou-se por Machado de Assis.
Acadêmico
Eurípedes Chaves: o denominou “O Verdadeiro Varão de Plutarco”.
Professor
e escritor Álder Teixeira (outro amigo temporão do Sérgio, forjado entre as
estantes da Livraria Cultura): segundo o professor Álder, ali eles conversavam
com a pilha de livros ao pé do sofá, como um cão de estimação.
Acadêmico
Janedson: lembro com emoção de um episódio que nos aconteceu. Combinamos de
redigir um documento da academia a quatro mãos. Então, eu fiz o rascunho
preliminar e o apresentei. Ele leu pensativo e falou: “Está muito bom, mas você
coloca vírgula demais”. Nunca imaginei que um dia eu voltaria a estudar o
capítulo de pontuação, mas foi o que fiz. Que momento mágico foi aquele. Nunca
mais colocarei vírgula em um texto, inclusive neste, sem lembrar do meu querido
amigo.
Muitos
outros se manifestaram: Drs. Djacir Figueiredo, Manassés Fonteles, Plínio
Câmara (Professor/Mestre), Otho Leal (relação familiar), Eduilton Girão,
Marcelo Gurgel, Lineu Jucá, Iran Rabelo, Ivan Moura Fé, Elias Boutala, Huyghes
Parente, Salvio Pinto, Cesar Pontes, Augusto Guimarães, Vicente Leitão,
Vladimir Távora e tantos outros.
·
Associativo,
Participativo, Apaixonado, Plural, Conciliador - Incrível isso: Respeitávamos e apreciávamos
suas generosas opiniões, até quando contrariava as nossas, quando entendíamos
diverso. Quantas vezes revimos nossas sugestões ante a força, elegância e
coerência dos seus argumentos!
·
Médico
de corpo, mente e alma – Prática de medicina diferenciada:
Acadêmico
Waldeney Rolim: é comovente o relato de como ele tratou e salvou a vida de uma
parente do Dr. Waldeney, por mais de três meses de internamento hospitalar.
Santa Medicina que ele praticava!
Acadêmico George Magalhães: destacou seu
zelo pelo prontuário médico. Suas evoluções médicas apresentavam, além de
irrepreensível detalhamento técnico, fortes traços de humanismo e erudição.
·
Pessoa
insubstituível - Contrariando
o dito popular, há pessoas insubstituíveis. Em troca de ideias com os Drs.
Ricardo Pessoa e Ricardo Pereira, concluímos que faremos as funções que o
Sérgio desempenhava mas, jamais, com a sua majestade.
·
Forte -
Luminoso - Preenchia o ambiente que ocupava - Sempre aguardado - Parecia Eterno
> AGORA O É!
·
Colaboração
da Dona Verônica (secretária executiva da ACM):
Entre
prantos, ela me confidenciou: “Doutor, nunca sabemos quando nos vemos pela
última vez. Jamais imaginei que, quarta-feira passada, seria a última vez que
veria o Dr. Sérgio entrar por aquela porta”. Não permitamos que a perda do
Sérgio seja em vão. Aprendamos mais essa lição. Amemo-nos e demonstremos o
nosso carinho uns pelos outros. Como nos ensina o Apóstolo Paulo, aliviemo-nos
mutuamente, ajudando a carregar os pesos e fardos uns dos outros. Não neguemos
nossos abraços, beijos, afagos e sinceros elogios com os demais.
·
Colaboração
final
No
velório, ao lado do caixão de repouso do Sérgio, ouvi do Dr. João Brito, meu
colega de turma: “Janedson, parece que Ele, ultimamente, tem escolhido e levado
os melhores, mesmo ainda tão novos”. Não me contive e expus minha pretenciosa
tese de conquista do céu: por acreditar que viemos a esse mundo para preparar a
vida eterna, os muito bons – como foi o Sérgio – precisam de menos tempo para
essa conquista. Será?
Finalizando (para
a família):
·
O Sérgio fez sua páscoa em tempo pascal, tempo
de passagem, de mudanças, quando tentamos matar nosso “homem velho” para surgir
o “homem novo”. No Evangelho de São João (3,3), Jesus Cristo recomenda ao
incrédulo Nicodemos que “você deve nascer de novo”. Pois bem, isso se aplica a
todos nós, por que não também ao Sérgio? Ele nasceu de novo, só que para o
“homem espiritual”, “para o Reino de Deus”.
·
O que assusta não é essa morte física,
corporal. O pavor se reserva à morte eterna. O acadêmico Dr. Sérgio Gomes de Matos, ao contrário, ganhou a vida
eterna!
Ac. Janedson Baima
Bezerra
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